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Domínios Portugueses - Mapa Anacrônico
Domínios Portugueses - Mapa Anacrônico




Anotações de aula do curso "História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa na África e na Ásia". Departamento de História - FAFICH/UFMG. Período: 17 a 21 de novembro de 2008. Carga horária: 30 h/a.



Aula 1: Os descobrimentos portugueses no Atlântico e a exploração da costa ocidental africana (1415-1498)


Descobrimentos e Possessões Portuguesas
Descobrimentos e Possessões Portuguesas


Fatores à expansão:

1411: Acordo de paz com Castela → Estabelecimento efetivo da dinastia de Avis → necessidade de afirmação diante do restante da Europa através de grandes feitos militares, especialmente por ser uma "dinastia de bastardos". Representa uma grande mudança política para Portugal (um governo menos voltado para o príncipe) e causa um problema – a nobreza tradicionalmente se ocupa da guerra; em períodos de paz, é preciso extravasar essa belicosidade para uma nova atividade.

As primeiras viagens:

1415: Conquista de Ceuta. Significa o domínio de toda entrada/saída de embarcações do Mediterrâneo para o Atlântico e vice-versa, especialmente sobre as novas rotas Norte Atlânticas (rumo ao Norte da Europa). Região de muita atividade corsária muçulmana (especialmente a costa Sul da Península Ibérica, litoral do Algarve, mas chegando até o Norte de Portugal). Intenção de conquistar o ponto de saída do ouro dos impérios centroafricanos (não dá certo pelo desvio das rotas) e de disseminar o cristianismo pelo mundo, estabelecer uma ligação com o reino do Preste João e lutar contra o Islã no Norte da África.

As primeiras viagens aconteceram já no século XIV, com provável avistamento das ilhas Canárias e da madeira. As ilhas aparecem em mapas genoveses, o que poderia ser uma evidência, muito embora haja recorrentemente nos mapas dos séculos XIII-XV a presença de ilhas fantasiosas, que iam sendo "empurradas" para as regiões ainda não conhecidas à medida que progredia o conhecimento sobre o Atlântico.

Ceuta → caráter militar.
Arquipélagos do Atlântico (Madeira, 1419-20; Canárias, 1424; Açores, 1427) → açúcar.

Descobrimento da Costa da África:

No século XIV, a costa africana era conhecida até o Sul do Marrocos (região do Cabo Bojador). O ritmo das novas descobertas varia com a importância econômica do último lugar descoberto (só se passa a um próximo ponto, em geral, quando o anterior deixa de ser lucrativo) e de acordo com a conjuntura político-militar de Portugal. Também o estado da guerra no Marrocos influencia a expansão pelo restante do litoral africano (quando a guerra está mais intensa, há menos incursões).



O Infante D. Henrique

Ínclita Geração

ccristo.gif 1420: Pela bula In Apostolice Dignitatis Specula (homônima a outra de 1418), o papa Martinho V concede ao infante D. Henrique o domínio da Ordem de Cristo, o maior potentado econômico do país, detentora de terras e de força militar. É o que lhe permite financiar as primeiras viagens, que não deram retorno econômico suficiente para compensar os investimentos e despesas. Até 1460, é o próprio infante (não a Coroa) quem financia as expedições. Forma-se um corpo de técnicos, pilotos e homens do mar trazidos de toda a Europa (especialmente Gênova, Veneza, Galícia), que fica conhecido como "Escola de Sagres".

Por que a dificuldade de ultrapassar o cabo Bojador até os anos 1430?

Nessa região, o efeito das marés e correntes marítimas empurra os navios para o alto mar. Além disso, o vento sopra de Sul para Norte (ou seja, na direção contrário ao trajeto pretendido). Os navios utilizados até então eram as barcas, equipadas com velas redondas (fixas), que não ofereciam a possibilidade de selecionar o vento a ser utilizado (como posteriormente permitiriam as velas triangulares das caravelas). Acredita-se que foi precisamente por isso que os fenícios que ultrapassavam a região ou se perdiam em alto mar ou não conseguiam voltar e eram mortos na costa.

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Navios dos Descobrimentos

Correntes oceânicas circulares.
Correntes oceânicas circulares.


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1424(?): Chegada ao rio do Ouro (não tinha esse nome porque se havia descoberto de fato o ouro, mas porque o infante precisava encontrá-lo para dar continuidade à expansão).

1437: Após um fracasso militar no Marrocos, é tentada a conquista do Tânger. Até a morte do infante, deixa-se de pensar no Marrocos. É um momento de rápido avanço dos descobrimentos na costa Norte atlântica, influenciado também pelo surgimento das caravelas. Um outro fator para essa aceleração foi a passagem pelo Saara: como não se descobriu nada de interesse, foi-se avançando rapidamente para o Sul. No reino, o infante D. Pedro era o regente. D. Pedro apoiou significativamente a colonização das ilhas do Atlântico.

A partir de 1442, o Império Songhai (atual Mali) passou a fornecer escravos (escravização de guerra). É o empreendimento que começa a trazer retorno financeiro para a expansão marítima portuguesa.

Começa a haver viagens de particulares interessados no comércio de escravos. D. Henrique consegue com D. Pedro, através da Ordem de Cristo, a exclusividade do comércio na região. Comçam a surgir problemas com Castela, especialmente em relação às ilhas Canárias (não pelas ilhas em si, mas por serem ponto estratégico para a navegação rumo ao Sul da costa africana). O acordo feito (Tratado de ?), mais tardio, assinado por D. João I, cedeu as ilhas a Castela, mas garantiu que os navios castelhanos nçao atrapalhassem os portugueses na navegação para o Sul, o que só foi possível porque o poderio militar português à época era imensamente maior que o castelhano.

1449: Abrandamento das viagens em direção ao Sul devido a dificuldades cada vez maiores no aprovisionamento dos navios. Foi ainda um momento de conflito entre facções rivais no reino português, que quase levou à guerra civil e à divisão do reino. D. Henrique aproveitou o momento para realizar missões diplomáticas junto à Santa Sé (Papa Nicolau V), o que resultou nas bulas:
  • Dum Diversas (1452): Autorização a Afonso V para escravizar os "infiéis" da África Ocidental.
  • Romanus Pontifex (1455): Seue a anterior, autorizando a conquista e a escravização de todas as populações ao sul do cabo Bojador. Foi um reconhecimento do direito de Portugal à posse das terras, que já era fato. Romanus Pontifex (em Inglês)

1456 ou 1460: Chegada às ilhas de Cabo Verde . 1460: Chegada à região da atual Serra Leoa. Morte do infante D. Henrique. Período de pausa no esforço de expansão para o Sul.

(...)


D. João II


O direito de passagem para o Sul (Canárias) e o direito/domínio sobre o Atlântico Sul foi fator determinante do acordo/série de acordos com Castela, mais do que a existência ou não de terras a Oeste. Isso porque para passar sem acidentes o cabo da Boa Esperança em direção às Índias era necessário navegar por alto mar, não por cabotagem.

(...)

Passagem para o Sul do Equador → a Estrela Polar deixa de ser visível, o que gera problemas de orientação → Regimento do Sol (1480 ou 1485). Regimentos @instituto-camoes.pt.

É com D. João II que se conjugam de forma sistemática todos os fatores para o que se pode chamar de um "plano das Índias", o que, ao contrário do que dizem muitas fontes, não existiu no período de D. Henrique (D. Henrique → Preste João). O navio deixa de ser pensando apenas como meio de transporte e vai se transformando em uma verdadeira máquina de guerra. Contratação de bombardeiros, artilheiros e mestres da construção naval para o aperfeiçoamento dos navios → surgimento das naus. Até João da Nova, usavam-se apenas caravelas; a viagem de Vasco da Gama já contou com caravelas e naus.

1481: A bula Aeterni regis (Sisto IV) garante a Portugal todas as terras ao Sul das ilhas Canárias.

Descobriu-se que o Atlântico não é fechado como se acreditava anteriormente, que existe uma passagem para o Índico pelo Sul da África.

Croqui do Mapa-Múndi de Henricus Martellus, 1489
Croqui do Mapa-Múndi de Henricus Martellus, 1489

Mapa-múndi de Ptolomeu (1482) | Mapa-múndi de Henricus Martellus Germanus (1489?)



Sobre a tese da "política de sigilo"

Alguns pesquisadores defendem que teria havido por parte de D. João II uma política de sigilo severa, responsável pela destruição de diversos documentos que existiram, mas não chegaram até nós. É claro que uma política de sigilo em torno das navegações e descobrimentos se fazia necessária; no entanto, por questões práticas (p.ex. o fato de que havia navegadores estrangeiros a serviço de Portugal), ela não podia ser tão extrema, e existem de fato peças produzidas na época e que chegaram aos dias de hoje. As questões mais estratégicas provavelmente permaneciam em sigilo, mas as operações de rotina foram e permaneceram documentadas. O historiador não pode instrumentalizar essa provável política de sigilo como explicação para a falta desta ou daquela peça documental, muito menos trabalhar supondo a existência de uma documentação que teria sido destruída.



Links interessantes:
Cronologia da Península Ibérica medieval (379-1500) @www.ricardocosta.com
Cronologia: Exploração do Atlântico (1419-1500)
SOUSA, João Silva de. O Infante, a Covilhã e a Ordem de Cristo.



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